Andam faunos pelos bosques

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Diário de uma incursão... - Dia 12

Published by CF under on 28.9.09

Chegou o dia de despedir da serra que nos acolheu durante esta aventura. A banda dos Bicos, na sua serenidade enigmática, de tantas histórias de pastores e rebanhos que conheceu, acompanhou-me os dias e as noites, tendo mesmo preenchido os meus sonhos. Acredite-se ou não, até a dormir a influência daquele local se fazia sentir, alimentando a minha imaginação com histórias bizarras de fogo, de pastores, de animais e de vultos de negro… (nem perguntem)


Algo que ficará certamente na memória destes dias, serão os inevitáveis fifinhos. Estas criaturas, dotadas de uma persistência sem par, fizeram na invasão do MEU espaço pessoal uma demanda! E nem que lhes custasse a vida, morreriam a perseguir o objectivo de se engalfinhar com a roupa, para serem os primeiros a dar os bons-dias, pela manhã! Certamente, os amigos mais íntimos que se poderiam ter naquele local… (Nota: nenhum fifinho foi ferido e/ou padeceu intencionalmente no decurso desta expedição. Nota 2: fifinho é um nome bem mais adequado que opilião, digam o que disserem.)


O gado da serra: os vizinhos habituais, audíveis a qualquer hora, quer quando a vaca chama a si os compinchas a recolher, ou o potro se afasta mais do que deve, ou o infindável tilintar dos chocalhos durante a noite, sempre intensificado quando um uivo cortava os ares…


A branda de Bersavó, só avistada de passagem. Diz que, em tempos, os faunos andaram efectivamente por aqui! ;)


Malas aviadas, é tempo de dizer adeus à serra e regressar à civilização, num percurso fantástico pela serra da Peneda. Tenho pena de não poder explorar mais por aqui, mas fica a nota para regressar.

A aventura terminou… mas mais hão-de vir. Obrigado a todos. :)*



Diário de uma incursão... - Dias 10 e 11

Published by CF under on 27.9.09



Finalmente começamos a achar que estes bichos têm de ser mais espertos que nós...

Existem indícios de presença e indícios celestes de que algo está para acontecer, mas a cada dia as pedras do caminho ficam maiores e mais resvaladiças, e o peso carregado torna-se mais sufocante.

E
m momento algum penso que não vale a pena estar neste lugar!
Mesmo na ausência de resultados, o que se aprende a cada dia é alucinante, desde conhecimentos de biologia, ecologia e medicina das espécies que vamos observando (ou não...), até a etnografia e história desta região, tão rica e tão esquecida... no cocuruto de Portugal. Além disso, os sítios por onde se passa parecem dignos de contos de fadas (eix, o que eu fui dizer... :P). A cada clique da máquina fotográfica, surgem cenários desta categoria:

... E eu nem sou assim a fotógrafa do ano, não é? Imagine-se: se parece bem aqui, como é estar no local, a sentir o vento fresco do alto da Serra e a ouvir os chocalhos distantes e os bichos todos num rebuliço? Indescritível, por fotos, por palavras ou que mais pudesse trazer. É mesmo preciso calçar as botas e apontar para o trilho menos batido!

No cair de mais uma belíssima noite serrana, lembro-me de uma passagem que li hoje, ao descansar nas margens do rio Vez. É a última noite no Soajo, e parece que a serra nos brinda com o que de melhor tem, da aragem que ainda cheira a Verão, até aos sons distantes dos animais (será que ouvi um uivo? Ou era piar? Hmm...) e o omnipresente espectáculo celeste, de uma nitidez inigualável.

Havia festa no céu, tudo estava aceso de nascente a poente…

Regalada noite para os bichos bravos, estas noites brancas em que os lobos nas limpaças uivam à lua, quem sabe se a julgar que é ovelha que vai fugindo! Comadre raposa anda de ameijoada rente às eiras, e a boga acode ao galrito, doida de todo. Quem tem ferros arma-os no toural, e é coelho certo, que eles saem dos brejos a valsar.
Rica noite para os bichos, as águas e quem vai de jornada!
Aquilino Ribeiro
Terras do Demo


Parece-me uma boa descrição... :)

... a saga continua...
... só mais um bocadinho.

Diário de uma incursão... - Dias 8 e 9

Published by CF under on 25.9.09

O
s dias sucedem-se, quentes e cheios do esplendor de um Verão fora de tempo.

Na matutina serra, os bichinhos descansam calmamente, quase alheios aos viandantes. Estes, a cada passo, perscrutam o monte com binóculos, na ânsia de surpreender o voo soberano da águia-real ou um lobo esquecido das horas. Nada... parece que o Soajo nos ilude com manobras de diversão enquanto, por outro lado, se fecha em copas a proteger aquilo que lhe é mais precioso.




Aqui ou ali, uma avezinha minúscula cruza os ares e pára num ramo de urze. Zombeteira, é só alguém sacar da máquina fotográfica e adeuzinho!, lá vai ela. Aqui era um pisco-de-peito-ruivo, mas o chasco-cinzento e as cotovias abundavam pela manhã, dando os bons-dias serranos que os seus primos mais emblemáticos nos negavam...

O que vale é que a boa disposição dos bravos exploradores (hihi) era virtualmente inabalável... e à falta dos bichos, lá se fazia mais uma sessão fotográfica do pôr-do-Sol. :)


À noite, ainda sobra tempo para uma enriquecedora tertúlia sobre astronomia, no digerir de uma requintada refeição de cogumelos! O céu nestes locais é mesmo qualquer coisa de fenomenal... onde na cidade só se perscrutam aleatoriamente algumas estrelas sem nexo, aqui podemos identificar a Ursa Maior (e a sua irmã mais nova), a Estrela Polar, as Pleiades... Além dessas, com um esforço hercúleo (pelo menos de meninos da cidade como eu) a constelação Cassiopeia e com imaginação e criatividade (e galhofa q.b.), o planeta Marte.

A certa altura, uma estrela cadente fortíssima deslizou pelo céu, antes de se dividir em numerosos fragmentos luminosos. Foi um espectáculo como nunca visto! Decerto é o sinal que precisávamos!! E sabemos exactamente para onde aponta -- ninguém duvida que amanhã teremos sorte naquelas bandas! :D

... a saga continua...

Diário de uma incursão... - Dia 7

Published by CF under on 23.9.09

A
manhã quente não trouxe novidades, tal como esperávamos. O fauno, acossado pela nossa traição, deve ter ido para andar para bosques mais longínquos...

E já que ele foi para longe, vamos nós também. Apressados, acelerámos o passo serra abaixo, com o destino apontado para Montalegre. Após uma merenda ligeira, o asfalto voava debaixo de nós, em plena torreira da tarde.

Para não se ficarem a rir de nós, decidimos voar sobre asfalto espanhol, só para gastar um bocadinho do deles também... hehe ;)

Mas não estava fácil, e o trânsito das grandes metrópoles nacionais não pense que é melhor que os outros! Nas aldeias do Norte de Portugal produzem-se engarrafamentos bovinos verdadeiramente prodigiosos, ao ponto de se encerrarem pontes, gerando-se um pequeno caos onde nem falta a sinfonia de chocalhos.





Após debelarmos uma série destas situações, foi possível alcançar o local pretendido, onde cinco ovelhas nos aguardavam em pânico, após terem sido debicadas por criaturas nocturnas... No exterior, várias companheiras destas jaziam na torreira do meio da tarde. São situações tristes e frustrantes, e infelizmente sem fim à vista. Haja paciência e bom senso para lidar com os prejuízos causados pelos animais selvagens e assilvestrados, e haja sempre um cuidado a dar a estes animais que vêm a besta de frente e vivem para contar...

No regresso, a assinalar a audácia de certo e determinado lagarto galego (espero que não haja nenhuma espécie com este nome...), que decidiu atravessar fora da passadeira, correndo em desespero e tão rápido, que mal parecia que tinha patinhas!


"olha lá vai ele!" :)


Depois de uma correria assim, havia quem pedisse um dia de pasmaceira, para variar...


... a saga continua...
... mas com mais calma :)

Diário de uma incursão... - Dia 6

Published by CF under on 22.9.09

N
ão é de surpreender que toda a gente estivesse acordada e apetrechada antes da hora habitual! E isto sem nenhuma combinação na noite anterior, além do pacto selado com a besta que nos chamava de longe...

Pelo percurso, inúmeros indícios da sua presença recente aguçavam a imaginação a cada instante. Apostava-se o local onde iríamos finalmente surpreender o nosso fauno, apanhado pela curiosidade a deambular nos limites do seu bosque. Houve vencedores, e o fernesim da antecipação levou a uma das cenas mais cómicas desta aventura, com toda a gente a correr por todo o lado em busca do ser encantado debaixo de cada urze, cada tojo, cada pedrinha, um pauzinho... talvez?

... O bicho podia não caber lá, mas o meu estômago cabia de certeza... :P


M
as todos acabámos vencidos pela sua astúcia, que nos deixou com a água na boca mais uma vez. Mesmo nas nossas barbas, a criatura escapou do nosso fojo, deixando-nos a fazer batidas a bezerros tão desnorteados como nós...



O que vale é que a serra é misericordiosa com os persistentes, e tem sempre uma forma de nos presentear carinhosamente com algo que nos ajuda a levantar a cabeça e continuar a luta. E ver o mar do alto da Pedrada é algo que anima qualquer um, quanto mais não seja pelo contraste entre a rudeza do relevo serrano e a serenidade do oceano ao longe.

O que também anima de certeza é um serão de frango de churrasco! E há quem diga que se tratou do melhor frango alguma vez degustado pela humanidade! Hehehe... Verdade ou não, aqueceu um bocadinho os estômagos e corações, para amanhã se continuar a odisseia com novo fôlego.

... e a saga continua...